vênus cacaria
Expedição 24/03/2017

Cacaria é a coleta e seleção de cacos de cerâmica encontrados em determinada área do terreno do Projeto Imburana. Seu nome é uma referência a Serra da Cacaria, um relevo independente da Serra do Arapuá.

“Lá na Serra da Cacaria, que chama Serra da Cacaria porque quando botaram os índios de lá pra correr, que eles correram tudo, que ficou cachimbo, pote, panela, essas coisas de barro lá, eles quebraram tudo, deixaram lá só a cacaria, aí ficaram chamando Serra da Cacaria”. (versão dos índios Pankará) 

Com uma altitude aproximada de 900 metros, a Serra do Arapuá possuia em 2005, 47 núcleos populacionais denominados pelos indígenas de “aldeias”, entre eles a Serra da Cacaria, que geograficamente se distingue dos demais por ser um relevo independente. As aldeias são habitadas tanto pelos indios Pankará, como por pequenos agricultores não-índios e algumas fazendas de médio porte pertencentes à elite local.

Segundo a literatura, a região também é caracterizada pela antiga presença da mão-de-obra escrava, como nas fazendas Água Branca e Água Grande. Os negros foram trazidos à região para trabalhar como escravos nas fazendas do Pajeú e São Francisco.

Uma outra característica da Serra do Arapuá é a presença de um sítio arqueológico, onde se encontram fragmentos de cerâmica e de artefatos de pedra. Há cachimbos de cerâmica e material lítico. A Serra da Cacaria é a área de maior concentração desse material. 

20/11/2016, em visita ao Museu Paraense Emílio Goeldi tive contato com os cacos colados de cerâmica Carajás com as seguintes informações:

“As cerâmicas encontradas em Carajás são parecidas em vários aspectos aos artefatos ainda hoje feitos por gupos Tupi. O estilo próprio destes se reflete nas vasilhas feitas com roletes de barro sobrepostos que ao se juntarem, preservam as marcas dos dos dedos e das unhas na superfície. Outra característica é a decoração com desenhos geométricos com desenhos geométricos angulosos ou motivos em curvas formando labirintos.”

Em Carajás, esses desenhos parecem ter sido gravados com argila ainda úmida, em outras cerâmicas Tupi, os desenhos são pintados antes ou depois da queima da vasilha.

A cerâmica era fabricada segundo a técnica de acordelamento, em que roletes de barro eram sobrepostos, alisados e decorados. Depois de seca, a cerâmica era queimada em fogueiras.”

Fonte : paineis explicativos do Museu Paraense Emílio Goeldi

Uma urna pequena dentro de uma urna maior”. O Projeto Cacaria é um projeto dentro do Projeto Imburana.

De 4-6 de setembro de 2016, durante a 4ª expedição ao Projeto Imburana eu descobri e coletei no terreno uma certa quantidade de cacos na tentativa de seguir algumas pistas sobre a manufatura dessa comunidade, desde que não existe na feira de Carnaubeira da Penha nenhuma peça de olaria. O vazio de informações fez-me supor que poderia ter sido um sítio de rituais. Porém, ao tentar saber, há uma negação veemente de que não existe “essas coisas por aquelas bandas”, assim como meu pai sempre disse “vamos acabar com essa estória de índio aqui em casa”. Mas a negação faz parte do apagamento ou talvez de uma atitude de resistência cultural. Desde então, decidi que iria pesquisar sozinho com os meus caquinhos.

Chegando ao Recife, ao limpá-los e separá-los por critérios de cor, textura e expessura, consegui colar fragmentos que resultaram na “Venus Cacaria”. A vênus geradora de todo o processo desse projeto.

Se o desejo de trabalhar a ideia de cacaria já existia porém a abordagem arqueológica intuitiva reforçou-se a partir das histórias construídas a partir dos achados arqueológicos de Carajás.

No material coletado temos a sugestão de pote, panelas, e esta 'coisa de barro': a vênus cacaria musa de todo este projeto in progress.s

 

cacos coleta
catando cacos
cacos no terreno
cacos
coleta
mais
coleta
cacos

 

 

 

 

 

Execução da Pesquisa

1° passo : viajar ao local e recolher todos os cacos possíveis no terreno.

2° passo : limpar cuidadosamente os cacos das impurezas e classifica-los “no olho” por textura, cor, expessura, e outras características ainda por determinar.

3° passo : Procurar o “outro pedaço” que se encaixe, e se encontar, colá-los.

4° passo : Seguir pistas, textuais ou orais dessa atividade louçeira, e tentar construir um percurso do processo de feitura, dos tipos de artefatos e de suas formas, ou seja, tentar saber do saber-fazer desses ceramistas. Como a cerâmica era feita?

 

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“Uma Linha feita caminhando”, de Richard Long, 1967, é o antecedente historico desta proposta. Este trabalho de Land-art foi feito em uma das longas viagens para St. Martin a partir de sua casa em Bristol. Long andou para trás e para a frente em um campo em Wiltshire, até a relva achatada absorver a luz solar e se tornar visível como uma linha. Ele fotografou esse trabalho, e registrou suas intervenções físicas na paisagem. Embora esta obra minimize presença corporal do artista, ela antecipa um grande interesse na prática da arte performativa e das práticas contemporâneas que se realizam fora da instituição.

O Projeto Cacaria dialoga, portanto, com as práticas contemporâneas que Nicolas Bourriaud denomina de forma de um desdobramento ou “índice de um intinerário”. Segundo o autor a forma trajeto pode remeter a um ou vários elementos ausentes, fisicamente distantes, passados ou futuros. Pode ser constituída por uma instalação conectada com eventos posteriores ou com outros lugares; e pode, pelo contrário, reunir em um mesmo espaço-tempo as coordenadas estouradas de um percurso.

… e as (mulheres) que são muito velhas têm cuidado de fazerem vasilhas de barro com a mão...a qual louça cozem em uma cova que fazem no chão, e põem a lenha por cima, e creem estas indias que se cozer esta louça outra pessoa que não seja a que a faz, que hà de arrebentar no fogo.

FREIRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala, p. 104, 28a ed. Record, Rio de Janeiro, 192

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